O caipira e o advogado
Em uma cidade do interior
um advogado ali nascido e criado,
por um comerciante
foi procurado, já mal intencionado,
para cobrar uma conta
de um caipira endividado.
Devido a uma forte seca
que deixou o caipira arrasado,
da grande área de terra plantada
não conseguiu colher nada.
O caipira acostumado a comprar
daquele comerciante esperto,
estabelecido na beira de uma estrada
ali bem perto.
O caipira sempre pagava certo
pois sempre andava correto.
A cada quatro meses o comerciante
somava, o caipira assinava
e dias à frente, espontaneamente, pagava.
O caipira muita compra havia feito
sempre do mesmo jeito.
O comerciante somou, mas por esquecimento,
o caipira não assinou.
E o comerciante também não lembrou.
E por motivo da seca
o caipira não pagou.
Com isso o tempo passou
e o comerciante arquitetou.
Aproveitando a ocasião
tomar a terra do caipira tentou.
O doutor advogado o caipira chamou
para vir a seu escritório.
O caipira mandou dizer: a distância
é a mesma para eu aí ir
e tu vires aqui.
Pois tu não és autoridade,
tu formaste em faculdade
conhece as leis nacionais,
mas o que eu faço tu não fazes.
Cada um em seu setor
somos formados iguais.
O doutor muito vaidoso
o seu carro pegou
e lá na roça chegou.
Em frente a casa do caipira encostou.
O caipira lá fora mesmo
duas cadeiras colocou:
uma para o doutor
e na outra sentou.
O doutor orgulhoso disse:
não sento em qualquer cadeira,
sou um advogado
e falou com jeito entonado,
por que não foste lá
seu caipira atrasado?
O caipira respondeu:
vou te dar uma lição.
Tu pensas que é o tal.
Nesse instante se formava
um temporal.
O caipira já sabia
o que iria se dar,
e ao doutor começou a falar:
agora vou te contar...
aqui na roça eu também
sou um doutor.
Enquanto tu estudaste na faculdade
as leis da constituição,
aqui aprendi e já sei,
que daqui hoje não vais sair.
O doutor não entendeu
e zangado ficou,
e o caipira falou:
tenha calma doutor,
queira sentar-se por favor
assim de pé vais se cansar!
O doutor sentou-se
e o caipira começou a falar:
veja aquele cavalo que ali está.
O que é aquilo que na cabeça
dele está?
O doutor disse, não sei.
Aquilo se chama boussal.
Veja essa grande árvore
que nos está dando sombra
e oxigênio. Não sei não disse o doutor.
Isso se chama cinamão.
Pois é doutor, aqui como já disse,
eu sou também um doutor.
Sei o nome da madeira
da qual é feita aquela cocheira.
Também sei com exatidão
como se faz um mangueirão.
Para fazer cabos de foice
machado, enxada e jirau
lá na mata eu sei qual é o pau.
Também sei que para o meu rancho
precisamos entrar,
pois o temporal já vai desabar.
Agora já dentro do racho
vou lhe contar.
O seu cliente disso está inocente
o senhor pode constatar.
O documento das compras
ele esqueceu de dar para eu assinar.
O doutor se despertou
e no ato constatou,
enquanto isso observou
que a chuva continuou.
Apavorado andando
de lado a lado ficou,
e sufocado pelo tempo
já passado, já era tarde da noite
quando o temporal acabou.
Ali naquele racho com baratas
e ratos pernoitou,
pois dali não pôde sair
o seu carro atolou.
Só no outro dia à tarde
já com menos vaidade,
em sua casa na cidade chegou.
Com o carro imundo
de barro e cocô
que as galinhas, de cima da árvore,
defecou.
Com os sapatos lambuzados,
o terno amassado,
com as pernas trêmulas
de fome, brabo igual lobisomem.
Com os cabelos amassados
com a causa perdida,
pois a esperança foi só na ida.
Na volta desiludido,
com a papelada na mão
somando nada com nada
por não estar assinada.
São experiências que se adquire.
Com isso a gente se admira
não podemos zombar dos caipiras.
Eu já fazia poesia
quando pouca idade tinha,
mas foi com quarenta anos
um jovem maduro apenas,
que liguei minhas antenas
Locival Antonio de Vargas
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Autor: Locival Antonio de Vargas
(Tio Gaúcho – O Loça)
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