O puro amor do passado renovado
Buscando no passado
o puro amor para renovar,
no futuro busquei, com o pensamento,
para pensar no momento o puro amor.
Com sentimento revivido
através do tempo quase esquecido
ainda não vencido.
Pois o amor não tem idade,
nem orgulho, nem vaidade
quando ele é de verdade.
Por todo lugar que andei
nela sempre pensei.
Apenas como e onde está
eu não sei, aquela que tanto amei.
Pois há vinte anos, chorando,
a ela eu deixei.
O que vim a fazer e o
porquê dela me distanciei...
Se alguém me perguntar:
por que dela se distanciou,
e a ela nunca mais voltou?
Com muito sentimento
responder vou:
Foi por um fato muito triste
que a ela eu deixei
e dela me distanciei.
Com uma dor profunda
foi que de minha terra me afastei.
Fui à procura de uma filha roubada
que muito já procurei
e até hoje não encontrei.
Agora vou contar em frases a rimar
o que veio a se dar:
me casei com tanto amor
e logo tive tanta dor.
Minha mulher, minha flor
apenas um ano depois deu à luz
com tanta dor, uma linda menina.
Mas ela faleceu no parto
saindo morta do quarto.
Cinco anos se passaram
e eu criando aquela prenda
pequena, que se chama Marilena.
Me juntei com outra mulher,
não fiz nenhuma besteira.
O amor entre nós dois ainda
era maior do que com a primeira.
Mas poucos dias se passaram
desse grande e puro amor,
coisa triste para mim se passou
a minha filhinha alguém roubou.
Por isso e com isso
dela, minha amada, não deixei
foi essa a razão que me distanciei.
E com nossa senhora padroeira
dos navegantes falei
e mesmo não tendo resposta
nela eu confiei.
E por mim e por ela falei
e um pacto firmei,
que por água sairei
e com minha filhinha
nos braços voltarei.
Mas se minha filhinha não encontrar
nunca mais irei voltar.
Se a senhora me ajudar
meu pacto não irei quebrar.
Com isso saí à procura de minha filhinha
que cinco anos tinha,
e com a fé que eu tinha.
Saí da terra minha
para, se precisasse, em todo Brasil andar.
E por água fui viajar
e veja o que foi, será difícil acreditar.
Como Nossa Senhora dos Navegantes
veio a me ajudar.
Com cinqüenta passageiros
o barco veio a afundar.
Quarenta e nove morreram
só eu vim a escapar.
À procura de minha filha continuei
a viajar, e dezenove anos procurei.
Há um ano atrás, já crescida, encontrei.
Vejam o porquê me demorei.
Foi ainda pela Senhora dos Navegantes
que a filhinha encontrei.
Em um rio muito grande
em um dia que naveguei,
em um barco navegando
uma mulher avistei.
Meu coração disparou,
coisa estranha me deu
quase não me controlei.
Toda vestida de branco,
que também sentiu aperto
em seu coração.
Sem por conta me dar
eu já estava ao lado dela.
Sem nem imaginar
o que iria se dar.
Ela me estendeu uma de suas mãos,
foram duas fortes emoções.
Com a outra mão ocupada
não me disse nada,
só ficou emocionada.
Algo estranho sentia,
olhando para mim e para a santa
que na tal mão ocupada trazia.
Parece que a santa sabia
só que a nós não dizia.
A santa que transportava
era a Senhora dos Navegantes.
Que em sua mão e em seu colo
segurava, por ser uma freira de Deus
que a Deus trabalhava
e que nessa hora nos ajudava.
Fez ela comovida contar sua vida
e com isso descobri a minha filha querida.
Esse caso é muito sensacional,
foram dois milagres afinal.
O primeiro foi da água me salvar
e o segundo foi pai e filha se juntar.
Agora sim vou voltar
para meu amor, mulher amada procurar
e nos braços do meu antigo amor descansar.
Vou bem guardado por uma freira,
minha filha ao lado.
E com essa companhia bendita
à Senhora dos Navegantes
faremos uma visita.
Eu e essa senhora bonita
com vinte e cinco anos,
que aos cinco foi roubada e levada
sem saber de nada.
Por um ladrão foi roubada.
Veja se é ou não é
a força que tem a fé.
Agora eu amo cinco mulheres:
minha mãezinha querida,
a mãe de minha filhinha
que com deus foi morar;
a Senhora dos Navegantes
que a mim veio a salvar
e minha filha, santa freira,
por quem eu faria asneiras.
A mulher, namorada minha amada
que eu ao sair se sentiu abandonada;
que ficou aqui mas eu nunca a esqueci.
Se há muito tempo estiver casada
felicidade em sua vida, em sua morada.
Mas se ainda estiver sozinha em fim,
e ainda pensando em mim,
ainda seremos felizes
de agora até de nossas vidas ao fim.
Apesar de nossa idade, sem luxo, sem vaidade
com carinho e humildade
mataremos nossas saudades, recordando
o tempo passado.
Pois o amor quando é puro
mas doce fica quando maduro,
e levando a vida avante,
obrigado Senhora dos Navegantes.
Por tudo que fez por mim
e ainda não chegou ao fim,
me ajude encontrar agora
aquela que me foi outrora.
Minha vida, minha glória
que acima estou a me referir aqui,
ficou ao eu sair.
Veja o que veio a se dar,
mais uma vez a santa veio a me ajudar.
No dia que se comemora o dia
dos navegantes, eu pela rua andava
em direção ao Rio Guaíba,
para acompanhar a procissão.
Passando em uma igrejinha
para surpresa minha,
saindo dela avistei aquela que tanto procurei.
Com uma imagem na mão
que iria também na procissão,
o que todos os anos fazia.
Reconheci pelo jeito e pelo cheiro,
meu coração sentiu
e no corpo um arrepio.
Quando disso sem dar por conta,
ela já estava tonta,
pois algo já sentia e sua sensibilidade
não resistia.
Quase teve um colapso
mas eu segurei em meus braços,
e se recuperando sorrindo
e de emoção chorando dizia:
demorou mas chegou
quem na vida eu mais queria.
Acabou a minha dor,
pois está em meus braços
por quem eu morreria de amor.
Esse é o fim de mais um caso
dos mais puros dos amores,
que as raízes não secou,
que buscando do passado reviveu
com mais ardor.
Assim que nasceu e permaneceu
o mais puro dos amores.
Obrigado mais uma vez nossa senhora
protetora dos navegantes,
que por nós já fez bastante.
Obrigado a mim mesmo,
minha força, minha fé.
Hoje somos muito felizes,
pela água, fora dágua
e pelo chão andando,
a pé vencemos tudo
e a todos pela força da fé.
Eu já fazia poesia
quando pouca idade tinha,
mas foi com quarenta anos
um jovem maduro apenas,
que liguei minhas antenas
Locival Antonio de Vargas
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Autor: Locival Antonio de Vargas
(Tio Gaúcho – O Loça)
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