Vestido amassado, na porta do salão pelo porteiro barrado
Esse caso me foi relatado
aqui mesmo no Brasil,
onde o céu é mais azul
no estado do Rio Grande do Sul.
Os gaúchos ficaram se perguntando
porque isso aconteceu,
lançando essa pergunta
logo alguém respondeu.
Não foi gente nascida aqui,
veio de outro país
não muito longe daqui.
Ea uma menina pobre
que abandonaram assim,
na beira do Rio Taquari
perto de onde eu nasci
e de lá saí guri.
A menina foi crescendo
e com somente doze anos
deu à luz a uma outra menina.
Uma criança cuidando de outra,
não parecendo ser coisa divina.
Pois Deus não teria permitido acontecesse
coisa assim a uma criança, com 11 anos
começando a racional,
viesse a engravidar.
Vejam agora leitores
o que veio acontecer,
aquela mamãe de tudo carente
o que encontrou pela frente.
Foi criando aquele anjinho
com amor e carinho,
imagine de qual jeitinho.
Pela rua sem abrigo
mas com honra e cuidado,
catando coisas no lixo
concorrendo com os bichos.
Às vezes ela mãe, não comia
para sobrar para a filhinha.
Sua filhinha foi crescendo devagar
com o de bom a cobiçar.
Quando sete anos tinha
uma família rica
lhe pegou para criar.
Sem autorização a pegou
e como dono ficou
e em uma faculdade
em quinze anos se formou.
Em todo esse tempo
em que da filha se aproximava,
ela se distanciava
e da mãe a ninguém falava.
No dia da formatura
em um luxuoso salão de festa
a formatura se realizou.
Se os leitores avistarem uma mancha no papel
é de alguns pingos de uma lágrima
que do alto veio a rolar,
dos olhos azuis do poeta
que a poesia veio a manchar.
No tal dia da grande festa
que no jornal anunciava,
a catadora de lixo
em um lixão encontrava
um vestido bem singelo
e um velho par de chinelo descorado
pelo tempo, ambos estão amarelados.
Quando a festa começou
do tal salão se aproximou.
Chegando na portaria
o porteiro lhe falou:
aqui não entra mendigo
aqui só entra convidado
nutrido e bem tratado.
A mãe mendiga respondeu:
eu sou mãe de uma formanda
o seu nome é Amanda,
é uma morena linda
está vestida de bordô.
Só não sei se em seu coração
tem um pouco de amor.
Só a certeza que tenho
que fui em quem a gerou.
Passando fome e frio
nunca lhe deixei ficar
com o estômago vazio.
O porteiro emocionado
e muito bem intencionado
procurou o chefe da festa
e a ele explicou.
O chefe também se emocionou
e a tal moça procurou.
Mas a moça desse jeito falou:
eu sou filha de uma dama
o meu pai é um doutor,
não conheço essa mulher
tire-a daqui por favor.
A mãe mendiga dali saiu
logo à frente com veneno se matou.
Quando foi no outro dia
a notícia se espalhou.
A filha rica e formada
com o canudo na mão
procurou a sua mãe
e no caixão se debruçou.
Aí já era tarde só o canudo restou.
Esse poeta escreve e assina em baixo
e é verdade, digo tudo em frases rimadas
que dinheiro não é tudo,
às vezes é de tristeza por um
incompreensível coração.
Quem merecia muitos beijos e abraços
não sentiu boa emoção,
mas tirou a sua vida
com as suas próprias mãos,
e foi abraçada já morta
em um humilde caixão.
Agora esse inteligente e modesto poeta
aqui relata e se retrata,
mostrando sua emoção
retratando que tem alma e coração.
Pede a Deus a essa moça perdão,
pois a maior culpa não é dela não,
pois na faculdade
não aprende essa lição.
E o mundo aqui fora
o que mais ensina é ilusão,
pois essa filha só aprendeu
debruçada naquele triste caixão.
Eu já fazia poesia
quando pouca idade tinha,
mas foi com quarenta anos
um jovem maduro apenas,
que liguei minhas antenas
Locival Antonio de Vargas
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Autor: Locival Antonio de Vargas
(Tio Gaúcho – O Loça)
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