A mulher do ferreiro e o Alfredão

Há muitos anos passados
quando a condução era cavalo,
na beira de uma estrada
vivia um ferreiro com sua amada.

Um homem forte
que na hora do perigo
zombava até da morte.

Mas homem bom de coração
de todos se fazia irmão.
Sem orgulho, sem luxo nasceu
no Rio Grande do Sul
onde o céu é mais azul.

Era filho de gaúcho
tomador de chimarrão
e naqueles tempos antigos
cortava a barba com facão.

O tal ferreiro tinha uma ferraria
na beira de um estradão
que atravessava o sertão.

Um dia o ferreiro viajou
e a mulher sozinha ficou.
No outro dia, ali chegou um homem
grande, metido a valentão.

Um covarde na verdade,
que vendo a mulher sozinha
quis aproveitar da ocasião
e assim perguntou: onde está o ferreiro?

A mulher respondeu com educação:
meu marido viajou,
mas eu ferro o teu cavalo
com minhas mãos.
Encoste aqui teu alazão.


O homem disse a ela:
eu sou o tal Alfredão
conhecido por valentão,
faço homem comer pó
quando o derrubo no chão.

Mulher dança e a roupa tira,
tu vais ferrar o meu cavalo
quietinha e peladinha.

Puxando de um quarenta e quatro
no telhado fez um buraco,
a mulher que frouxa não era
viu a casa virar tapera.

Tirou a roupa no ato
sem alarde e sem guerra.
O bruto vendo aquilo
tirou a roupa também
e as amontoou de um lado,
ficando dos pés a cabeça pelado.

A mulher inteligente
colocou um plano à frente:
enquanto o bruto se distraiu
pegar a arma conseguiu
e em cima da roupa colocou.

Por não saber com quem lidava
nem desconfiou.
O bruto se enganou
pois a mulher que já estava quase de quatro
pegou o quarenta e quatro.

E como estava acostumada
também a atirar,
ficou dona da situação
fez o macho virar a mão.

Ao lado tinha um a jaula
onde prendia leão
que atraia lá do matão.

Fez o bruto dentro ficar,
fez a polpa virar caroço,
fez o bruto ficar pelado
de mão no bolso.

Ali ficou prisioneiro
cinco dias sem comer, nem beber
quando o ferreiro chegou
sua mulher explicou.

Deu-lhe uma surra de chicote
fez o bruto dar pinote,
e como estava enfraquecido
nem deu trabalho ao marido.

E pelado com a moral no fundo
como veio ao mundo,
foi aí então que mulher e marido
fizeram uma combinação.

A ferradura que para o cavalo seria
colocaram no falso valentão,
e enquanto batia as brocas
que os pés atravessava
o bruto gemia e gritava.

E para judiar do tirano
com um ferro pontiagudo queimando
no saco dele iam cutucando.
Saiu dali ferrado
e com o saco sapecado.

Eu já fazia poesia
quando pouca idade tinha,
mas foi com quarenta anos
um jovem maduro apenas,
que liguei minhas antenas

Locival Antonio de Vargas

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Autor: Locival Antonio de Vargas (Tio Gaúcho – O Loça)

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