Os lamentos e a alegria de um cego
Em primeiro lugar
quero te dizer a tu
que não tens a tua visão:
seja por qual motivo e desde quando,
que o que escrevi aqui
no qual tu verás no fim,
é uma dica a ti, peça todos os dia
ajuda a Santa Luzia.
Minha santa, minha esperança
de todos os dia,
me dê a luz do dia, me dê mais alegria,
põe luz em meus olhos,
quero ver a imagem de Maria
e de Jesus.
A imagem de todos os santos
e tudo mais que se possa enxergar,
meu pai, minha mãe
em primeiro lugar.
Sem poder evitar a luz do dia
e a seguir tu que a tudo alumia
Santa Luzia.
Fiquei cego de repente,
da visão fiquei carente,
foi aí que valor eu dei
na visão que se tem.
Quando não pude ver mais
aí que entendi a falta que a luz
pelos olhos me faz.
Quando as pessoas passam aqui,
todas com seus olhos me vêem tão bem,
só eu não vejo ninguém.
Todas andam sozinhas
só eu ando ajudado por alguém.
Quando passa um desfile
todos podem enxergar,
eu não vejo nada disso
eu só fico a imaginar.
Quando eu não era cego
enxergava com clareza,
agora que cego fiquei
eu só sinto tristeza.
Quando eu podia avistar
com meus olhos e coração
a palpitar, embora alguém amar
hoje não vejo ninguém
só fico a lastimar.
O que eu podia fazer
quando a visão eu tinha
hoje não faço mais
minha vida é vazia.
No dia que a rua eu saía
me divertia com que eu via.
Agora em qualquer lugar
eu não vejo a luz do dia.
Quando eu ia a um baile
eu dançava com as gurias,
no tempo que tudo eu via
muito prazer eu sentia.
Agora que estou cego
só o choro me alivia.
Quando eu ia à igreja
ouvia e via o padre a missa rezar,
hoje eu não sei e nem vejo
a posição na igreja
que me colocaram a sentar.
Quando saia da igreja
levava as imagens que via
na imaginação e coração,
agora saio de lá sem prazer
só pedindo a Deus a visão me devolver.
Há muito tempo passado
eu corria e brincava,
hoje quase nem ando
eu só fico pensando
no tempo que eu enxergando,
andando no mato onde moram os bichos
felizes, cantando, piando e namorando.
Eu moro dentro de casa, tristonho
me lamentando,
até os macacos vivem felizes
de galho em galho pulando,
eu nem posso andar, por não enxergar.
Quando minha mãe já cedo chamava,
em direção a ela eu caminhava,
hoje ela nem me chama, me leva
o café na cama.
Quando meu pai de viagem chegava
eu corria e lhe abraçava
com carinho e ternura,
agora é ele quem me procura.
Só os braços e a saudade eu tenho
ainda para lhe dar boas vindas.
De tudo isso e de disso além,
ainda me resta sensibilidade
para perguntar a ele se na viagem
foi tudo bem.
Quando eu chegava em uma creche
lá como é de costume fazer,
levando doces para as criancinhas comer.
Para a chefe da creche
eu entregava um grande pacote.
Nele continha uma variedades de doces,
para em momento oportuno,
dar a todas as criancinhas.
Com alegria elas me olhavam
e eu lhes enxergava.
Todas aquelas crianças
aqueles lindos rostinhos corados
com os lindos olhinhos me viam
e de alegria brilhavam.
E sorriam e em pensamentos diziam:
que tio bonzinho e sorridente
com ar de contente, felizes por saberem.
E um ao outro ficavam a dizer, bem baixinho:
daqui a pouquinho a titia
vai dar os docinhos trazidos
pelo tiozinho.
Hoje não vejo mais
aquelas lindas imagens,
continuo indo lá com fé e coragem,
não fiquei deles ausente
e continuo levando doces de presente.
Mas não consigo enxergar,
só através do pensamento
que fico a imaginar
todos para mim olhando
com sentimento pensando:
Coitadinho do tio
não está nos enxergando
e eu com isso memorizando.
Mesmo assim e com isso eu reajo
e um grande sorriso exalo
para a elas distrair
do pensamento que lhes abala,
pois não quero triste deixá-las
assim por ter pena de mim.
Agora mesmo, assim feliz
vou embora levado por quem trouxe.
Aqui de quem eu aceitei o favor
digo isso e não nego, porque agora estou cego,
quando eu ajoelhava e rezava
pela imagem, avistava o Jesus nosso Senhor
nosso pai e Salvador.
Agora continuo a fazer todos os dias
uma oração, só não sei se estou olhando
em sua direção.
Quando a namorada chegava
eu lhe abraçava e lhe beijava
porque em seus olhos eu via
que ainda me amava.
Agora espero por ela
para que venha me beijar,
mas sem eu saber
se ainda está a me amar.
Todos os dias eu pegava a bíblia
e ela com prazer eu lia,
agora apalpando nela, com tristeza
eu pego porque estou cego.
Em noites de lua cheia
que tão linda ela clareia,
eu ficava a ela admirando
e em boas coisas pensando.
Hoje nem saio à rua
porque entre outras coisas,
eu não posso ver a beleza sua.
Quando eu via uma criança
eu agradava e uma balas lhe dava,
e via em seus olhinhos a alegria
que em cada uma delas ficava.
E com prazer eu observava
na inocência de cada criança
isso era sensibilidade minha.
Hoje não posso ver nada disso
nem mesmo uma criancinha.
Já que não posso mais enxergar
mas aos menos soubesse voar,
voaria pelo ar, sem rumo para onde chegar
tentando encontrar Luzia para
luz nos olhos me dar.
Depois de muito me lamentar
e em Luzia pensar,
agora ao mundo eu vou contar
mesmo sem nesse momento esperar,
foi procurado um certo dia por Luzia.
Isso foi um dia cedo, eu ainda dormia.
Ela chegou em meu quarto
e me falou baixinho:
acorda querido ceguinho!
Eu acordei de repente, sem ver nada
em minha frente. Pensei ser mamãe,
mas não senti o cheiro do café
que ela me trazia antes de me pôr em pé.
Ai ouvi uma voz que assim me dizia:
eu sou a santa Luzia!
E com clareza me dizia:
a partir desse momento
tu vais ver a luz do dia!
Já passei a enxergar
mas ela não pude avistar.
Mas a voz continuava e eu já me animava
e da cama levantava,
mas sua imagem não avistava.
E falei com a voz tremendo:
a senhora eu não estou vendo.
A santa me respondeu: continua
em mim confiar, eu gostei da tua fé
por isso vim te curar,
mas tu e ninguém pode me enxergar.
Eu estava contigo quando em mim
estava a pensar, se soubesse voar
iria me procurar para eu a luz te dar.
Pois veja como é, tu foste salvo pela fé.
Eu sou invisível
estou ao mesmo tempo em todos os lugares.
Ando em toda a terra por cima de todos os mares,
circulando nos ares da amplidão,
enviada por Deus da salvação.
Estou sempre presente no coração
de cada cristão, e dando atenção
todo segundo do dia, a quem tiver fé
e em mim confiar com devoção.
Dali eu saí andando e em nada
mais tropeçando, e minha mãe abraçando
e de alegria, filho e mãe
ficamos chorando.
Saí direto a uma livraria,
comprei uma imagem de Santa Luzia
e para casa a trouxe,
coloquei lá no meu quarto
com a data desse dia.
Para nunca mais esquecer
e todos os dias agradecer
essa graça recebida.
E o que não conhecia
conheci nesse dia.
A maior das alegrias foi ouvir
Santa Luzia e ver a luz do dia.
Por isso meus irmãos carentes de visão,
te exorto de coração,
a tua solução poderá estar
em tua decisão.
Peça com muita fé,
pois poderá receber um dia
a visita da invisível Santa Luzia.
Eu já fazia poesia
quando pouca idade tinha,
mas foi com quarenta anos
um jovem maduro apenas,
que liguei minhas antenas
Locival Antonio de Vargas
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Autor: Locival Antonio de Vargas
(Tio Gaúcho – O Loça)
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